“Voar” - a valorização das nossas raízes




Um homem que sabe voar; outro homem acha uma pedra no rio que é capaz de comprar qualquer cidade; um outro que não aparece em cena, mas que está lá, perguntando e ouvindo a resposta; outros homens na platéia.
Voar, assim como quem abre as asas e plana sobre o Cerrado. Voar, assim como quem dá um rasante e vê de perto quem habita essa terra de árvores esparsas e retorcidas. E é assim, como pássaros que observamos a interpretação de Marcos Fayad na peça “Voar”, uma adaptação de textos de Gil Perini.
Atuação brilhante de Fayad. Um homem feio, caolho, desdentado, enrolado em uma colcha de retalhos, calça rasgada, camisa de manga longa e chapéu. Uma dessas figuras que quem conviveu com gente da roça deve ter visto inúmeras vezes. Homens humildes, cheios de histórias fantásticas (que juram que são verdadeiras) e um imenso amor à vida simples e ao Cerrado.
Uma fogueira, uma árvore, um banco, um interlocutor imaginário e alguns causos, assim é o monólogo “Voar”. A poesia do Cerrado de forma simples. O homem do campo começa a narrativa pela história de um amigo, que sabia voar e que um dia, havia jurado que lá de cima viu borboletas só de uma asa e que para continuarem vivas se abraçavam e batiam as asas juntas, como se fossem uma só.
Mas ele não está lá só para falar do amigo. Há também a própria história. Um dia, quando estava na beira do rio ele viu uma pedra, que brilhava como o sol. Um brilho que ofuscava as vistas e que se revelou um diamante tão grande quanto um ovo de galinha.
O que fazer com o achado? O homem do Cerrado começou a pensar como um doido em tudo o que aquela pedra podia lhe trazer: a bicicleta que não teve na infância e até mesmo a carne que era artigo de luxo e que, quando criança, desejava comer sempre e poucas vezes tinha no prato. Dos sonhos pequenos aos sonhos grandes: fazendas, casas, até uma cidade inteira.
Então, pensou que perderia o sono, o sossego e ganharia preocupações que só o dinheiro pode trazer. Perderia o cantinho em que sempre morou, o canto dos pássaros, as árvores e os caminhos que conhecia até mesmo com o olho fechado. Ganharia as preocupações do mundo.
O que fazer com o diamante? Qual caminho traçar?
“Voar” é uma bela história, que valoriza as nossas raízes, nossa gente humilde, nossas histórias. Marcos Fayad interpreta um homem de fala mansa, com sotaque carregado, que fala errado, mas que traz pureza no coração.
O cenário é simples e ao mesmo tempo lindo. Uma preciosidade de quem entende que menos pode ser mais: uma árvore feita com lascas de madeira, uma fogueira, um banquinho e um círculo feito de folhas secas. Assim é “Voar”.

Esse texto foi escrito em novembro de 2008, quando a peça “Voar”, da Cia. de Teatro Martim Cererê, com direção e interpretação de Marcos Fayad esteve em cartaz no Centro Municipal de Cultura Goiânia Ouro.

Para ler: O Pequeno Livro de Contos do Cerrado, de Gil Perini.

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    Goiânia, Goiás, Brazil
    Jornalista por formação, especialista em Filosofia da Arte. Trabalho em TV, mas sempre ligada ao Jornalismo Cultural, com ênfase em Teatro e Cinema.

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