Heleno – a intensidade em cena



“Eu não sou jogador de futebol, sou a própria vontade de jogar, a gana”, é assim que Heleno (Rodrigo Santoro) se define. Um jogador controverso que muito antes dos jogadores multimilionários fez sua fama.
Ele jogava para o Botafogo e era temido pelos adversários e pelos companheiros de time. Era controverso, inconsequente, mulherengo, maluco, agressivo. Mas principalmente amava o que fazia e não aceitava dos outros nada menos que o máximo.
Se Heleno fazia o impossível em campo também cobrava isso dos colegas. Entre xingamentos, gritos e rusgas ele chamava a atenção dos colegas para que se empolgassem, que dessem tudo de si pelo time. Tanto que não aceitava dinheiro quando o time perdia ou empatava e censurava os companheiros por isso. Não era o dinheiro que o movia, mas o barulho surdo da bola entrando no gol e a torcida, os gritos.
Mas Heleno se perde no seu perfeccionismo, é egocêntrico. Nada além dele interessa, todo o resto do mundo pra ele estava errado. E assim ele vai perdendo o respeito dos colegas e dos dirigentes dos times, o amor de suas mulheres e a amizade dos que ainda restavam.
Entre uma droga e outra Heleno se fecha em si. E fica cada vez mais distante do mundo, o que é agravado pela sífilis.
“Heleno”, de José Henrique Fonseca, é um filme marcante, cheio de garra, gana, um balde de água fria. Uma história boa, bem narrada e interpretada maravilhosamente bem por Rodrigo Santoro. É um chacoalho para aqueles que não mais se empolgam com o que escolheram pra fazer.

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Plural - da delicadeza à força




Meninas que nasceram com a mesma perspectiva: não ter perspectiva. Na roça, na lida da casa, a fumaça do fogão caipira impregnada nos cabelos, as roupas simples, o trabalho pesado, cuidar dos irmãos, ser deixada de lado pela família. Crianças que nasceram pra servir os pais, o resto da família, os homens e, se Deus quiser, o marido. Tão bem cuidadas como uma moita de chuchu que deu no canto da cerca. Marias.
E a história de uma dessas meninas que foi parar no teatro com a peça “Plural”, da Cia. Nu Escuro. Maria é mais uma criança no meio de vários irmãos, mora na fazenda da avó, órfã de pai, sem perspectiva de estudar, relegada aos trabalhos da casa e a deixar as melhores partes da comida pros irmãos-homens. Preterida.
Maria é uma frágil e linda boneca feita de crochê, assim como seus parentes. Uma mãe acalentadora, mas passiva; uma avô autoritária; um padrasto ignorante que arrasta parte da família pra vida dura da cidade; e os irmãos, inúmeros irmãos.
O sofrimento da menina da roça é contado em várias vozes. Vozes de Marias de verdade, que um dia nasceram e cresceram na dificuldade. São relatos sonoros de mulheres que tiveram uma vida dura. E assim a história vai sendo tecida, entre o real e a ficção, entre os bonecos e gente de carne e osso.
E quem nunca ouviu histórias como a de uma menina que não sabia o que era menstruação e achou que estava morrendo? Ou de uma criança que comeu algo escondido e coo castigo teve que comer ainda mais?
Inclusive essa é uma das melhores cenas do espetáculo. A avó de Maria diz a ela pra não comer as bananas que estão em cima da mesa. Mas assim que a idosa sai, a menina as vê dançando na frente dela, tentando, convidando, quase que a obrigando a comer: “Minha casaca é simples, mas o conteúdo é sensacional”. E nessa hora, os manipuladores não são apenas manipuladores, mas agentes ativos do espetáculo. Dançam, cantam, interagem com os bonecos. Seduzem o público.
Além dos bonecos, “Plural” também é uma orgia visual, com suas projeções e luzes. Sua quermesse de bonecos iluminados. Seus carros velozes vindos do passado só pra transitar no cenário e amedrontar a Maria. Um casamento apurado entre cinema e teatro.
O espetáculo é como muitas Marias por aí, a primeira vista, sensível, delicado. Mas com o tempo nota-se a força e a intensidade.


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"DentroFora" e a pós-modernidade




Perturbadora. A peça “DentroFora” da companhia gaúcha In.Co.Mo.De-Te é assim, uma reflexão perturbadora.

Antes de ir à peça eu conversava com um amigo sobre como as pessoas estão fechadas em si, em seus compromissos e ele dizia: “É a pós-modernidade”. (Uma explicação que não me convencerá nem em mil anos).

Ao chegar ao teatro encontro duas pessoas encaixotadas. Um homem e uma mulher cada uma numa caixa. Eles conversam, se relacionam separados por uma parede.

Relembram os velhos tempos em que dançavam, as viagens e discutem temas importantíssimos como o conceito de azul. Sozinhos, isolados.

Ela chega até mesmo a quase fazê-lo adiá-la só pra que ele perceba que ela a ama. Mas nada adianta, eles estão separados por barreiras quase intransponíveis que talvez nunca tenham existido, mas que um dia criaram, entraram e onde agora se expõem, como numa vitrine.

Certo momento ela começa a chorar porque não aguenta mais e o parceiro, do outro lado da parede, percebe o estado de espírito dela e fica muito exaltado porque ela está feliz. Ela, é claro, confirma tamanha felicidade. E vejo tanta semelhança conosco, nós que estamos fora da caixa. Nós e nossos computadores (caixas?), fingindo que somos sempre tão felizes. Nada de contato, assim podemos manter a pose, não é mesmo?

Mas o mais perturbador de tudo é quando ela acha a porta. Abre. Vacila entre dentro e fora enquanto o companheiro (que não acompanha) continua a falar. E ela volta! Ela volta pra caixa sem dizer uma palavra. Como se aquilo fosse normal, como se a caixa fosse o único lugar possível. Pelo menos é cômodo, não é mesmo?

Quer dizer, ela diz. Ela começa o mesmo diálogo do início da peça e que repetiu inúmeras vezes:

“Será que vamos encontrar?”

Ele: “O que?”

Ela: “Não sei, pra mim tanto faz”

Talvez enquanto tanto fizer pra gente, se não estabelecermos prioridades, se não conseguirmos perceber o outro, tanto faça mesmo. Abrir ou não a porta, dentro ou fora, tanto faz. Estamos todos isolados mesmo.


“DentroFora” foi apresentada gratuitamente durante o Festival do Teatro Brasileiro, no Instituto Federal de Goiás. Com direção de Carlos Ramiro Fensterseifer e no elenco, Nelson Diniz e Liane Venturella.

Minhas tardes com Margueritte

"Nas histórias de amor não há apenas amor. Nunca dissemos 'eu te amo', mas nos amamos".




A gente sempre acha que o amor nasce entre iguais, descobrindo semelhanças, compartilhando sempre as mesmas coisas. A gente espera e acha que o amor é harmônico. E se ele é harmônico, não precisa fazer vistas grossas para certas diferenças, nem aprender a entender, compreender e muito menos perdoar, perdoar, perdoar.
Mas o amor nem sempre segue as regras da razão e muito menos busca iguais por aí. Acho até que o mais interessante são os opostos, que de pouquinho em pouquinho, vão achando um jeito de encontrar aqui e ali o que pode unir duas pessoas.
E é aí que o amor nasce entre duas pessoas que, a primeira vista, não combinariam. Germain (Gérard Depardieu) é um homem de meia idade, com dificuldade de aprendizado (muitas vezes burro, até) e grosso. Já Margueritte (Gisèle Casadesus) é uma idosa de 95 anos, culta e paciente.
Um dia, contando os pombos da praça, eles se conhecem. E passam dos pombos aos livros. Margueritte começa a ler para Germain, cada dia um pouquinho. E daí nasce a necessidade de se verem todos os dias. Mesmo sem marcar, eles estão lá no mesmo local e horário.
Passar um tempo juntos vira parte do dia. Um prazer, contado minuto a minuto para que comece. E um passa a habitar a vida do outro. A doçura de Margueritte mexe com Germain, que sempre teve que lidar com a indiferença da mãe. E Margueritte encontra em Germain o filho que nunca teve, a quem ensina palavras, pacientemente.
E assim "Minhas tardes com Margueritte" vai se desenrolando com um amor que vai crescendo aos poucos, sendo como tem que ser, um amor paciente e compreensivo. Desse tipo de amor que não precisa de "eu te amo", mas que se mostra nos pequenos gestos e cuidados.

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Pedro de Valdívia e as aulas de história




O assunto é a colonização do Chile pelos espanhóis. Mas não espere livros, quadro e pincel atômico. Não, não é uma aula de história. É uma peça de teatro.
“Pedro De Valdívia, La gesta inconclusa”, do grupo chileno Tryo Teatro Banda, conta de forma divertida as agruras dos europeus que desafiaram os índios sul-americanos para colonizar o Chile e é claro, obter ouro.
Em cena os três atores viram 11 mil, 3 mil, quinhentos homens atravessando as cordilheiras, o deserto, as florestas, o mar, lutando conta o inimigo, vencendo, perdendo, morrendo. Por meio das músicas agitadas e a ótima atuação, o trio se transforma em vários e transporta a plateia para aqueles dias em que o desejo era conquistar.
E conquistar naquela época era sinônimo de subjugar e matar os nativos. Ao longo da peça, vemos guerras e trapaças onde o índio é aniquilado pelo poder bélico do conquistador. Até que descobre que quantidade também pode vencer uma batalha.
E assim vemos nosso protagonista, Pedro de Valdívia, ora poderoso governador, ora acuado pelos nativos. Mas sempre com uma sede muito grande por poder e principalmente, ouro. Capaz de trair seus compatriotas para obter o metal.
“Pedro De Valdívia, La gesta inconclusa” é um espetáculo completo, que mistura ação e música, sem esquecer de um texto apurado. E assim, um assunto denso se passa num piscar de olhos, em pouco mais de uma hora de espetáculo, em meia à muitas risadas.
Há um apreço muito grande à interpretação, às vezes caricata, às vezes no limiar da normalidade, mas muito bem pensada. Até mesmo quando desempenham pequenos papeis, os atores estão lá, com uma presença de palco marcante.
A diversidade musical que eles apresentam é o forte do espetáculo. Ao longo da peça os atores tocam instrumentos de cordas, sopro e percussão. Tudo muito bem encaixado na narrativa.
“Pedro De Valdívia, La gesta inconclusa” é uma daquelas peças capazes de fazer qualquer aluno desinteressado em história se apaixonar pelo assunto.



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“A Farpa” e a necessidade de ritmo



De acordo com o Dicionário Aurélio farpa é “1. Ponta metálica penetrante, em forma de ângulo agudo; 2. Lasca de madeira que por acaso se introduz na pele”. Então é assim, a farpa, aquela que penetra na pele silenciosamente, que machuca com o tempo, que abre uma ferida que muitas vezes não pode cicatrizar.
É essa dor, essa ferida de anos, que a Companhia Mínima leva para os palcos com a peça “A Farpa”. Uma família que vive na roça, carcomida pelo tempo, o atraso e a falta de perspectivas. Pai e filho dementes, uma irmã que sonha em ir embora, uma mãe que lamenta a perda dos filhos, uma irmã morta, um cunhado que já nem fala e um irmão que volta depois de uma temporada na cidade.
A trama gira em torno da dificuldade de sair dos limites da cerca da fazenda e dos ferimentos que isso traz a cada um dos personagens. Há dor estampada em cada um. A dor da morte pela farpa, do sangue jorrando sem que ninguém possa fazer nada.
“A farpa” é até mesmo trágica. Forte, tanto na ação dramática quanto na preparação corporal dos atores. Os traços dos personagens mostram-se bem definidos com gestos e ações repetidas, bem estudadas, que mostram o máximo de sua demência ou desespero, mesmo quando nada é dito.
Mas o trabalho corporal supera e muito o trabalho de interpretação e há problemas principalmente na dicção de alguns atores. É impossível entender a metade do que a atriz que faz a irmã morta diz, o que prejudica o entendimento de algumas cenas.
Isso sem contar que a peça se arrasta no começo. Cantigas, ações repetidas, falas desnecessárias acabam por cansar o público. Até que do meio para o final, a ação começa a se desenrolar, vê-se o que realmente é a história e não um amontoado de coisas sem ligação.
É necessário que se enxugue o começo para que seja impresso o ritmo que “A Farpa” merece e que é conseguido a certa altura da trama. A dança do irmão louco com a irmã morta. Esse é o auge da peça. Aí é que eles mostram a que vieram. Pena que já é no final.

A Farpa foi apresentada pela Companhia Mínima entre os dias 11 e 12 de junho de 2011 no teatro do Centro Cultural Goiânia Ouro.
Direção e Concepção geral: Franco Pimentel
Atores: Allan Silvestre, Andreane Lima, Dulce Roza, Jakeline Araújo, Jenyffer Karla Crispim, Petrônio Magalhães e Wildes Crispim.


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Mostra de teatro de rua

Começa hoje, quinta-feira, 19 de maio, a 8ª Galhofada. A Mostra de teatro de rua acontece todos os anos no Setor Pedro Ludovico e é uma iniciativa de artistas e produtores locais que trabalham voluntariamente.
As apresentações são realizadas gratuitamente na Alameda Henrique Silva com a rua 1014, do Setor Pedro Ludovico, no canteiro central, apelidado de Ilha da Galhofa. A seguir a programação:

Quinta-feira (19 de maio)

16h30 – Macunaíma – Grupo Teatro que Roda
18h30 – Cenas Curtas - circo
17h30 - Rubem – StreetDance
18h - Mr. Sam
18h30 - Pés Nús – ‘Circolando’
19h - Sapequinha
19h30 - Improvisório
19h50 - Zyza Glaybe – Dança contemporânea
20h10h - Thaíse Poeta e Wellington Jhones – Fabrincantes
20h30 - Teatro do Maleiro
21h - Larysse
21h20 - Zyza Glaybe – Dança contemporânea
21h40 - Zabriskie – ‘Amor I Love You’
22h30 - Helinho Breno e David
Pré-molares

Sexta-feira (20 de maio)
18h –‘Amor por Anexins’ – Grupo Guará
19h30 - ‘Cozinha Goiana’ – Trupe de Cirandeiros
21h - ‘Dúplice’
22h - TonZêra e banda

Sábado (21 de maio)
9h – oficinas até 13 horas - inscrições ao lado do circo às 8h
16h – ‘Contação de Histórias’ – TripTrapo
16h30 – Cortejo - Ruas do Setor Pedro Ludovico
18h - Circo Laheto – quadros circenses
19h –‘Favelhaço’ – HipHop
20h – ‘A Última Gota’ – adapt. – Nômades
20h40 -‘Eu, Tu, Ele’ – Gr. Bastet
21h40 – ‘A Fábrica’ – Mímica Grupo Sonhus Teatro Ritual
22h - FéMenina – Lançamento do cd circo
Confraternização na Geppetto

Domingo (22 de maio)
9h – Charanga Jazz
10h - Príncipe Feliz - Cia. Novo Ato
11h -‘Os Artistas Saltimbancos’ – Plenluno
17h - ‘Conta um conto que eu Te Encanto’ - Cia. de Teatro Oops!
18h - ‘Só querer Fazer’ – Mov. Artistas de Rua
19h20 – ‘Que Samba é Esse?’ – Gr. Contemporâneo de Dança
20h - ‘Quintanando’ – Grupo de Theatro Arte e Fogo
21h - ‘Um Dia uma Banana’ – Dra. Angelina
22h - Passarinhos do Cerrado


Oficinas
Trupe da Guadalupe – aparelhos circenses
Eva – dobradura e pintura de rosto
Júlio Rodrigues – Tecido acrobático
Circo Lahetô – técnicas circenses
Sapequinha – Técnicas circenses
Vídeo – UEG – Carlos Cipriano
Streetdance - Rubens
Gravura/Carimbo – Manoela
Grupo Sonhus Teatro Ritual – Iniciação Mímica
Vânia Ferro – pintura
Aline - Bolhas Gigantes
Danilo Alencar – Teatro
Atividade lúdica funcional - Sabrina

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    Goiânia, Goiás, Brazil
    Jornalista por formação, especialista em Filosofia da Arte. Trabalho em TV, mas sempre ligada ao Jornalismo Cultural, com ênfase em Teatro e Cinema.

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