Biutiful – um encontro com a morte



Poucas pessoas tem a chance de saber quanto tempo ainda lhes resta de vida. Uxbal (Javier Bardem) é uma delas. Acometido por um câncer de próstata que já se espalhou pelos ossos e fígado, ele tem dois meses.
Mas será que alguém está pronto para essa partida? Talvez poucos ou mesmo, ninguém. Uxbal consegue ver mortos. Fala com eles e os ajuda a se desligarem da vida material. Mas mesmo ele, não está preparado para morrer.
Há em Uxbal principalmente a preocupação sobre o futuro dos filhos pequenos. Além dele, as crianças tem apenas uma mãe bipolar e alcoolatra e um tio malandro. E com certeza não são as pessoas mais saudáveis para cuidar de Ana e Mateo.
E ainda há questões com as quais o personagem deve lidar: Como preparar os outros para sua morte? Como encarar a doença e as dores? Como se preparar para a hora da passagem? Como se despedir da vida?
Talvez muitos pensem em aproveitar cada minuto mergulhado em festas, outros queiram se desculpar por antigas brigas, outros ainda se entreguem á desesperança. Mas nosso herói não. Ele simplesmente continua a viver normalmente. O trabalho, a casa, as crianças.
Há algo que sempre incomoda Uxbal: não ter conhecido o pai, que morreu ao ir da Espanha para o México, fugindo da ditadura. E uma das partes mais bonitas do filme é quando ele vê o corpo embalsamado do pai, que teve que ser retirado do túmulo onde estava enterrado.
É o encontro do pai de duas crianças que vai morrer com o corpo intacto do pai que morreu há décadas. Como se naquele momento eles se apresentassem. Todas as brincadeiras que não fizeram, os cuidados que não tiveram, as brigas que não aconteceram. A morte os toca. Um já enfrentou isso, já fez sua passagem e agora com certeza espera do outro lado o filho. É só uma questão de tempo.
“Biutiful”, de Alejandro González Iñárritu, é um daqueles filmes que nos tocam profundamente. Faz pensar na nossa relação com a morte e principalmente que rumo damos a nossa vida. A morte pode ser amanhã e podemos não estar preparados. Podemos não ter Uxbal para segurar nossa mão e desfazer nossos enganos para que possamos nos despedir tranquilamente da vida.
É a história de um homem, mas também traduz uma realidade vivida por imigrantes em países europeus, já que mostra africanos e chineses em sub-empregos na Espanha. É um drama com pitadas de suspense, mas que não perde o sentido. É uma narrativa muito bem construída, em que nada é dado por acaso nem de graça. É como um colar de pérolas em que o espectador deve construí-lo com elementos dados ao longo do filme. Uma cena no início do longa pode se explicar muito tempo depois, ou no fim do filme, o que deixa tudo mais intrigante.

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1 Response
  1. parece ser um filme mto bonito msm, irei procurar para assistir

    e realmete... acho q ninguém nunca está realmente preparado para a morte.

    bju pra vc
    http://qrolecionar.blogspot.com


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    Goiânia, Goiás, Brazil
    Jornalista por formação, especialista em Filosofia da Arte. Trabalho em TV, mas sempre ligada ao Jornalismo Cultural, com ênfase em Teatro e Cinema.

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