O trabalho do crítico

"Todos os que vão assistir qualquer tipo de espetáculo, ou que lêem um livro, ou ouvem uma música ou olham para um quadro são críticos, mas como são críticos basicamente só para si mesmos, e não precisam prestar contas de suas opiniões a ninguém, é claro que o componente “gosto” ou “não gosto” pode ter, na sua reação, um peso muito maior do que o que é permitido ao crítico, principalmente na crítica jornalística: o crítico particular, digamos assim, tem direito de afirmar, por exemplo, que não gostou ou gostou disto ou daquilo porque não gosta, ou gosta, de tragédia, ou de comédia, ou de ópera, ou de gravura: é pelas preferências que ele acalenta em sua visão particular das coisas que ele escolhe ver ou não ver determinado espetáculo ou exposição, ou ler determinado livro, segundo o que ouviu dizer a respeito. Já o crítico que tem de proclamar ao público em geral a sua opinião, em um jornal, não é dado esse privilégio. Já imaginaram uma crítica que começasse com a frase “Eu detesto tragédia mas tive de ir ver....” ou coisa no gênero? Para mim, pessoalmente, muito embora eu saiba muito bem que todo mundo, inclusive os críticos profissionais, tem preferências pessoais, uma das exigências para o desempenho desta odiada profissão é justamente o de se procurar abstrair ou superar tais preferências e tentar encarar o espetáculo a que assisto dentro dos parâmetros a que este se propõe. A definição ou até mesmo proclamação das convicções pessoais do crítico estiveram muito em moda nos anos 60 e 70 entre alguns críticos. com a conseqüência de tudo ser avaliado de acordo com posições ideológicas, mas a mim sempre pareceu fundamental, indispensável, a preocupação do crítico com a identificação do que se propôs o criador - muito embora as convicções pessoais de cada crítico acabem sempre por colorir suas opiniões: isso é um fenômeno cultural inevitável."

Bárbara Heliodora, em O Trabalho do Crítico (www.barbaraheliodora.com)
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    Goiânia, Goiás, Brazil
    Jornalista por formação, especialista em Filosofia da Arte. Trabalho em TV, mas sempre ligada ao Jornalismo Cultural, com ênfase em Teatro e Cinema.

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